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Muryel Massaro Psicanalista Agendar atendimento

Café em Prosa

Às vezes, a dificuldade de escolher começa depois que você já sabe o que quer.

Às vezes, a dificuldade de escolher começa depois que você já sabe o que quer.

• 6 min de leitura

Há momentos em que entender melhor uma situação não traz o alívio esperado, porque algumas respostas mostram que nem todas as possibilidades podem continuar abertas ao mesmo tempo. Enquanto uma questão permanece realmente aberta, pensar pode revelar o que ainda não está claro; quando algo começa a se definir, porém, o conflito não desaparece — apenas deixa de ser o mesmo.

Algumas decisões realmente precisam de tempo. Faltam informações, o que você sente ainda não ganhou forma suficiente ou duas possibilidades continuam tendo um peso parecido. Nesses casos, voltar à questão pode revelar algo novo. Mas nem todo pensamento que continua significa que ainda falta uma resposta.

Existe outro momento, mais difícil de reconhecer, em que pensar já não acrescenta tanta clareza quanto antes. Você percebe qual caminho deseja seguir, entende por que ele faz sentido e talvez até saiba o que se tornou difícil de sustentar como está — mas alguma coisa ainda impede que essa compreensão se transforme em decisão.

Então você reconsidera possibilidades já descartadas, volta a perguntas que pareciam respondidas e imagina se não existe uma alternativa que ainda não conseguiu enxergar. Talvez diga a si mesma que precisa de mais certeza. Só que, quando imagina o que aconteceria se realmente seguisse aquilo que já sabe, outras coisas entram na escolha: alguém gostaria que você ficasse, uma relação precisaria mudar, uma expectativa seria frustrada.

É nesse ponto que pensar mais pode estar tentando resolver um problema diferente daquele que parece resolver. Você já não procura apenas descobrir o que quer. Procura uma forma de fazer o que quer sem precisar conviver com determinadas consequências: dizer não sem que o outro se sinta recusado, mudar sem alterar demais uma relação, escolher um caminho sem que alguém importante desejasse que você tivesse escolhido outro.

Talvez você não esteja tentando apenas escolher certo. Pode estar tentando encontrar uma escolha em que nada importante precise ser perdido — nem por você, nem por ninguém.

Enquanto essa possibilidade parece existir, continuar procurando faz algum sentido. Talvez haja uma forma de preservar todas as alternativas ou manter intactas as expectativas construídas ao redor de você. O problema é que algumas decisões só se tornam realmente escolhas quando deixam de permitir essa preservação completa. Seguir um caminho significa não viver outros da mesma maneira. Sustentar um limite pode modificar um vínculo. Reconhecer o próprio desejo pode mostrar que ele não coincide inteiramente com o desejo de alguém que você ama.

Considerar essas consequências não é um problema. Há responsabilidade em perceber que nossas decisões afetam outras pessoas. A dificuldade começa quando consideração se transforma na exigência de encontrar uma escolha que não produza impacto algum. Para algumas pessoas, isso é especialmente difícil porque perceber o que acontece ao redor sempre veio antes de localizar o próprio desejo: elas reconhecem o que os outros esperam, quem poderá se decepcionar, onde pode surgir tensão e o que pareceria mais fácil para todos.

Às vezes, essa ordem é antiga. Em algumas histórias, a criança aprendeu cedo a observar a disponibilidade do ambiente antes de mostrar uma necessidade. Não porque alguém necessariamente tenha dito que ela não podia precisar, mas porque os adultos podiam estar cansados, preocupados ou lidando com problemas que pareciam grandes demais; em outras situações, contrariar alguém produzia afastamento ou tensão. Aos poucos, pedir, esperar, resolver sozinha ou deixar alguma necessidade para depois passavam a fazer parte da maneira de estar com os outros.

Isso não significa que toda criança tranquila, responsável ou independente tenha vivido algo assim. Há muitos caminhos para essas características. Mas, em algumas histórias, não dar trabalho também envolveu um trabalho que quase ninguém via: acompanhar o ambiente, perceber a disponibilidade dos outros e diminuir algumas necessidades antes mesmo de descobrir se elas poderiam ser acolhidas.

Na vida adulta, essa capacidade pode continuar tendo valor. A pessoa percebe nuances, considera diferentes lados e dificilmente toma uma decisão sem pensar em seus efeitos. O problema não está em perceber o outro. Está em sentir que o que você deseja só pode existir se não contrariar ninguém.

É aí que uma escolha começa a tocar em algo que vai além da própria decisão. Enquanto um desejo existe apenas dentro de você, ninguém precisa responder a ele. Quando passa a orientar o que você faz, outras pessoas também precisam se relacionar com aquilo que se tornou real. A pessoa que sempre compreendeu pode ser vista como aquela que, desta vez, não cedeu. Quem costumava preservar a relação pode ser justamente quem introduziu uma mudança que o outro não queria.

Às vezes, o mais difícil não é saber o que você quer. É suportar que, quando você escolhe, alguém possa deixar de enxergar você da maneira como enxergava antes.

Enquanto nenhuma decisão é tomada, essa mudança permanece adiada. Nenhuma possibilidade foi inteiramente abandonada, ninguém precisou responder definitivamente à escolha e ainda é possível imaginar que alguma solução futura reorganizará tudo sem exigir uma perda clara. Por isso, a indecisão pode durar mesmo quando é cansativa: ela conserva, por algum tempo, coisas que uma escolha tornaria impossíveis de manter juntas.

Mas a suspensão também participa da realidade. Uma conversa continua sem resposta, um projeto não começa, uma relação permanece organizada em torno de uma expectativa que talvez já tenha mudado. Não decidir não evita toda perda. Às vezes, apenas permite que ela aconteça sem receber imediatamente esse nome.

Talvez seja por isso que certas decisões se tornem tão exaustivas. Não se trata apenas de comparar caminhos, mas de tentar conciliar aquilo que você deseja, aquilo que os outros desejam e aquilo que gostaria de preservar em cada relação. Você pode considerar profundamente os efeitos de uma decisão e ainda chegar a um ponto em que impedir toda frustração exigiria desfazer a própria escolha. Reconhecer esse limite não elimina responsabilidade; apenas impede que ela seja confundida com a obrigação de preservar tudo.

Algumas decisões deixam de pedir mais clareza quando já não há muito mais a descobrir sobre o que você quer. A partir daí, começam a pedir outra capacidade: tolerar que alguém possa preferir outra resposta, que uma relação precise encontrar outra forma, que uma possibilidade deixe de existir e que você talvez não consiga continuar sendo, para todos, exatamente a pessoa que eles esperavam encontrar em você.

Isso pode produzir culpa, tristeza, sentimentos contraditórios ou saudade daquilo que fica para trás. Nenhuma dessas experiências, sozinha, prova que uma escolha estava errada. Elas também podem aparecer simplesmente porque decidir torna concretos limites que, enquanto tudo permanecia em aberto, ainda podiam ser imaginados de outra maneira.

Enquanto você não sabia, havia alguma coisa a descobrir dentro de si. Depois que sabe, a pergunta muda. Já não é apenas “qual caminho eu quero?”, mas se você consegue sustentar que esse caminho vai precisar ser vivido, não apenas pensado — e que outras pessoas também precisarão se relacionar com aquilo que a sua escolha tornou real.

Às vezes, a dificuldade de escolher começa depois que você já sabe o que quer porque, a partir dali, não falta necessariamente outra resposta. Falta atravessar aquilo que a resposta torna impossível manter exatamente como estava.

Muryel Massaro — Psicanalista

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