Às vezes, o que você esconde não é um segredo
Há experiências que incomodam não apenas pelo que fazem sentir, mas pela rapidez com que parecem exigir uma explicação. Antes mesmo de entendermos o que está acontecendo, já podemos estar tentando tornar aquilo mais aceitável.
É nesse tipo de momento que uma frase pode surgir antes mesmo de qualquer julgamento vindo de fora:
“Eu sei que é feio sentir isso, mas…”
Pode ser antes de admitir uma raiva de alguém que você ama, uma inveja que preferia não ter sentido, um alívio depois de uma perda ou o cansaço de cuidar de alguém importante. Ninguém precisou dizer que aquilo era errado. Ainda assim, o sentimento já aparece acompanhado de defesa, como se precisasse provar, antes de ser escutado, que não diz tudo sobre quem você é.
O julgamento chegou antes da investigação.
Existe uma diferença importante entre escolher manter alguma coisa em privado e precisar modificar internamente aquilo que sente antes mesmo de conseguir reconhecer com clareza o que está sentindo. No primeiro caso, você sabe o que existe, compreende que aquilo lhe pertence e decide não compartilhar. No segundo, o próprio sentimento precisa se tornar mais aceitável antes de poder receber um nome.
A raiva vira apenas frustração. O ressentimento é rapidamente coberto por compreensão. A vontade de se afastar passa a ser explicada apenas como cansaço.
Não necessariamente porque você esteja mentindo para si mesma, mas porque admitir determinadas experiências pode parecer ameaçar uma identidade que se tornou importante demais para ser colocada em dúvida.
Existe uma distância enorme entre decidir não contar alguma coisa e precisar modificá-la por dentro para continuar se reconhecendo como alguém aceitável.
Talvez por isso alguns sentimentos provoquem perguntas muito maiores do que a situação que os despertou.
“O que está acontecendo comigo?”
e
“O que isso prova sobre mim?”
As duas podem parecer próximas, mas pedem coisas muito diferentes.
A primeira abre uma investigação. A segunda procura uma sentença.
Quando a segunda pergunta chega primeiro, sobra menos espaço para descobrir de que situação aquele sentimento participa, o que ele torna perceptível ou por que apareceu justamente agora. A preocupação muda: ainda posso me considerar amorosa se sinto tanta raiva? Continuo sendo grata se reconheço o quanto aquilo me custou? Se hoje quero distância, será que tudo o que vivi antes foi mentira?
Um sentimento presente começa, então, a parecer capaz de julgar não apenas quem você é agora, mas também aquilo que viveu antes.
O alívio depois de uma perda pode colocar a tristeza anterior sob suspeita. A vontade de partir pode fazer os anos em que você quis permanecer parecerem menos verdadeiros. A raiva por alguém amado pode fazer o próprio amor entrar em julgamento.
Mas nossas experiências não precisam obedecer à coerência perfeita que muitas vezes exigimos da história que contamos sobre nós mesmos.
É possível ter amado e desejar partir. Sentir tristeza e alívio. Ser grata e, ao mesmo tempo, reconhecer um custo. Uma experiência não necessariamente desmente a outra.
Essa convivência pode ser especialmente difícil quando determinadas características se tornaram centrais na maneira como alguém aprendeu a se reconhecer. Nem sempre houve uma proibição explícita. Ninguém precisou dizer: “Você não pode sentir raiva” ou “Você não pode precisar de ninguém”.
Em algumas histórias, a aprendizagem aconteceu de modo mais silencioso. Certos estados encontravam mais impaciência, distância ou desconforto, enquanto outras formas de estar pareciam circular com mais facilidade nas relações importantes. Aos poucos, alguém pode começar a perceber que determinadas partes suas parecem tornar o vínculo menos seguro.
Com o tempo, já não é necessário que o julgamento venha de fora. Ele pode ser antecipado internamente. Alguns sentimentos parecem exigir explicação antes mesmo de serem reconhecidos; algumas necessidades só parecem legítimas quando conseguem ser suficientemente justificadas.
Aquilo que talvez tenha começado como uma maneira de preservar relações pode, então, passar a organizar também a relação com aquilo que se sente.
É nesse ponto que a questão deixa de ser apenas o que você mostra aos outros.
Passa a envolver aquilo que consegue reconhecer como seu.
Uma pessoa pode realmente ser cuidadosa, compreensiva, leal, independente ou forte. O problema não está nessas qualidades. Ele aparece quando a imagem precisa permanecer tão coerente que qualquer experiência que não a confirme passa a parecer uma ameaça.
Quem se reconhece como a pessoa que cuida pode demorar a perceber quando já não quer cuidar da mesma maneira. Quem sempre foi compreensiva pode transformar rapidamente a própria hostilidade em explicação antes de admitir que foi ferida. Quem construiu uma identidade de independência pode experimentar necessidade como se ela desmentisse tudo o que conquistou.
Nenhuma dessas identidades precisa ser falsa.
Mas uma imagem positiva de quem você é também pode limitar aquilo que você consegue conhecer sobre si.
Quanto mais essa imagem precisa ser preservada, mais difícil pode se tornar reconhecer experiências que não cabem nela — até que algumas só consigam aparecer em versões compatíveis com a pessoa que você acredita que deveria ser.
Isso não transforma todo sentimento em verdade definitiva. Emoções podem ser parciais, contraditórias, misturar tempos diferentes e mudar quando alguma coisa é compreendida. Também não significa que reconhecer o que se sente seja o mesmo que obedecer ao sentimento.
Sentir e agir continuam sendo coisas diferentes.
Reconhecer raiva não autoriza ferir. Perceber vontade de ir embora não determina, sozinho, que uma relação precise terminar. Sentir alívio não apaga a tristeza que existiu antes.
Reconhecer não coloca o sentimento no comando. Abre espaço para que exista pensamento entre o sentimento e o gesto.
Aquilo que não encontra uma forma possível de ser reconhecido ainda pode participar de como alguém reage, escolhe e se relaciona. Pode aparecer como irritação difícil de compreender, distância, cansaço ou indiferença aparente. Não porque toda reação esconda uma verdade única esperando para ser descoberta, mas porque aquilo que não conseguimos pensar com clareza não deixa necessariamente de participar da nossa experiência.
Talvez conhecer a si mesma envolva, então, mais do que saber nomear suas qualidades, valores e convicções. Também exige alguma possibilidade de permanecer diante daquilo que não combina perfeitamente com a pessoa que você gostaria de ser, sem transformar cada sentimento em identidade nem exigir que uma parte explique o todo.
Há uma diferença entre reconhecer que alguma coisa existe em você e permitir que ela defina quem você é.
Talvez algumas experiências possam deixar de ser recebidas como acusação quando encontram espaço para serem tratadas, primeiro, como uma pergunta: não “o que isso prova sobre mim?”, mas “o que isso pode estar me mostrando que eu ainda não consegui compreender?”
Muryel Massaro — Psicanalista