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Muryel Massaro Psicanalista Agendar atendimento

Café em Prosa

Quando tudo na sua vida faz sentido, mas quase nada parece escolhido por você.

Quando tudo na sua vida faz sentido, mas quase nada parece escolhido por você.

• 4 min de leitura

Há pessoas que conseguem tomar decisões difíceis com enorme clareza quando existe uma necessidade concreta, mas permanecem meses — às vezes anos — diante de mudanças que desejam para si. Se um filho precisa, reorganizam a rotina. Se o dinheiro aperta, refazem planos. Se alguém adoece, assumem responsabilidades que pareciam impossíveis. Mas podem adiar indefinidamente a saída de um trabalho que já não querem, uma mudança de cidade, o fim de uma relação ou qualquer escolha cuja principal razão seja apenas: eu quero outra coisa.

Isso costuma ser chamado de indecisão, mas nem sempre é. Uma pessoa pode saber decidir muito bem e, ainda assim, ter dificuldade quando não existe uma urgência dizendo qual razão deve pesar mais. O problema, nesses casos, não está necessariamente em descobrir o que deseja. Está em reconhecer o próprio desejo como uma razão suficientemente legítima para sustentar uma decisão.

Essa diferença aparece de maneira muito concreta. Você percebe há meses que quer diminuir o ritmo, mas continua até o corpo começar a cobrar. Sabe que quer deixar um trabalho, mas a saída só parece justificável depois de um conflito grave ou de alguma situação que torne permanecer claramente insustentável. Já percebeu que uma relação não faz mais sentido, mas continua esperando um acontecimento que permita dizer, sem tanta dúvida, que agora existe motivo suficiente para ir embora.

A vontade já estava ali; o que mudou não foi necessariamente o que você queria, mas a força da justificativa.

O problema pode não ser que você não saiba o que quer. Pode ser que tenha aprendido que querer, sozinho, não basta.

Necessidades chegam acompanhadas de argumentos. Há contas, prazos, riscos, responsabilidades e consequências visíveis. Elas explicam por que alguma coisa precisa ser feita e, muitas vezes, tornam a decisão compreensível também para quem está de fora. O desejo não oferece a mesma proteção. Dizer que você não quer continuar, gostaria de tentar outra coisa ou sente que algo deixou de fazer sentido não elimina consequências, não garante que a escolha dará certo e nem sempre produz uma explicação que pareça suficiente para os outros — ou para você.

É por isso que necessidade e desejo podem acabar ocupando lugares muito diferentes dentro de uma decisão. Uma necessidade merece consideração imediatamente; uma vontade própria precisa ser examinada, defendida, testada. Será que não é só cansaço? Não seria melhor esperar? E se for impulsividade? E se eu me arrepender?

Escolher envolve dúvida. A questão não está em eliminar essas perguntas, mas em perceber por que o desejo precisa passar por um julgamento que a necessidade raramente enfrenta.

A urgência não apenas apresenta uma razão forte. Ela também reduz parte daquilo que torna a escolha difícil de assumir.

Quando uma situação se torna insustentável, você já não precisa sustentar sozinha o peso de preferir um caminho. Pode dizer que precisou fazer aquilo, que permanecer deixou de ser possível, que as circunstâncias exigiram uma mudança. A decisão continua sendo sua, mas alguma coisa do lado de fora ajuda a carregá-la.

Quando a principal razão é o próprio desejo, essa proteção diminui. Você precisa assumir algo mais exposto: havia outras possibilidades, e ainda assim eu escolhi esta.

Algumas pessoas não esperam ter certeza. Esperam ter uma razão que diminua o peso de assumir: fui eu quem escolheu.

Isso ajuda a entender por que algumas decisões acabam acontecendo apenas quando a situação piora. Não necessariamente porque o sofrimento finalmente produziu coragem, mas porque aquilo que antes era uma preferência difícil de sustentar ganhou uma justificativa mais forte. O desejo não mudou tanto quanto mudou a possibilidade de defendê-lo. Aquilo que antes precisava ser sustentado como “eu quero” agora pode ser apresentado como “eu preciso”.

Talvez você não adie apenas decisões. Talvez espere até que aquilo que deseja se torne necessário para finalmente se permitir escolher.

É assim que uma vida composta por decisões próprias pode, ainda assim, parecer pouco escolhida. Não porque alguém tenha vivido no seu lugar, mas porque muitas escolhas só ganharam peso suficiente quando vieram acompanhadas de necessidade, responsabilidade ou impossibilidade de continuar do mesmo modo.

Dar ao desejo um lugar real não significa obedecê-lo nem ignorar vínculos, consequências ou limites. Significa permitir que aquilo que você quer seja uma das razões da escolha antes que precise se transformar em emergência para merecer consideração.

Na clínica, nem sempre a questão é descobrir um desejo escondido. Muitas vezes ele já está claro; o que precisa ser compreendido é por que, mesmo reconhecido, continua valendo menos do que razões que parecem mais legítimas.

É aí que a pergunta muda. Talvez você não precise continuar perguntando apenas o que quer, porque muitas vezes já sabe. A pergunta mais reveladora é:

o que você faz com aquilo que quer antes que alguma circunstância o transforme em necessidade?

Muryel Massaro — Psicanalista

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