Tem gente que só consegue sentir o que perdeu… quando finalmente é amada direito
Sabe quando alguém cuida de você de um jeito que parece simples demais para explicar o efeito que causa?
A pessoa lembra de uma coisa que você disse quase sem perceber. Pergunta de novo quando sente que a sua resposta veio curta demais. Permanece ali, sem transformar sua necessidade em peso, sem fazer você se arrepender por ter deixado alguma coisa aparecer.
E, no começo, talvez você nem saiba muito bem o que fazer com isso.
Porque uma parte sua queria descansar, mas outra ainda esperava algum sinal de risco. Uma mudança pequena no tom. Uma cobrança disfarçada. Um afastamento sutil, suficiente para fazer você recolher tudo de novo.
Só que esse sinal não vem.
A pessoa continua ali, e alguma coisa em você, que já estava pronta para se proteger, fica sem saber para onde ir.
Talvez seja nesse instante que o cuidado começa a doer de um jeito estranho.
Não porque ele machuca, mas porque, pela primeira vez em muito tempo, você não precisou voltar correndo para dentro de você. E, quando a defesa baixa um pouco, algumas coisas que estavam escondidas atrás dela começam a aparecer.
Às vezes, a falta não é sentida no momento em que acontece.
Enquanto a gente está tentando atravessar, aprende a funcionar com o que tem. Vai chamando de normal aquilo que se repete, vai se acostumando com pouca presença, pouco descanso e pouca certeza de que alguém ficaria.
Mas, quando alguém permanece de um jeito diferente, o passado muda de contorno.
Você começa a perceber que aquilo que parecia tranquilidade talvez fosse cansaço de pedir, e que uma parte da sua independência nasceu antes da possibilidade de contar com alguém.
E essa percepção não chega como acusação.
Chega como uma tristeza calma, quase atrasada, como se o corpo só conseguisse sentir o que perdeu quando finalmente encontra um lugar onde não precisa mais se proteger o tempo todo.
É como se o cuidado devolvesse uma medida.
Não para dizer que tudo deveria ter sido perfeito, mas para mostrar o quanto você precisou se acostumar com menos do que precisava para descansar.
E talvez seja por isso que ser amada direito possa causar uma dor tão delicada: porque não mostra apenas o que está chegando agora. Mostra também tudo aquilo que precisou faltar para que esse cuidado parecesse quase improvável.
O cuidado não apaga imediatamente aquilo que faltou.
Mas pode revelar o tamanho da falta sem pedir que você se defenda dela.
Pode fazer você perceber que algumas partes suas não eram difíceis demais. Estavam apenas cansadas de existir sem lugar.
E, quando isso acontece, a pessoa não sente apenas o presente. Sente também o peso de tudo o que precisou chamar de força para continuar sem amparo.
Talvez uma das compreensões mais difíceis seja perceber que você não era difícil de amar.
Havia apenas passado tempo demais aprendendo a viver sem esperar cuidado.
✨ Muryel Massaro — Psicanalista 📍 Aguaí/SP e online para todo o Brasil