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Café em Prosa

Algumas dores aprendem a existir em silêncio

Algumas dores aprendem a existir em silêncio

• 4 min de leitura

Há experiências que acontecem tão depressa por dentro que quase não deixam tempo para perceber o que aconteceu entre sentir alguma coisa e seguir adiante. Com o tempo, certos movimentos podem se tornar tão conhecidos que já não parecem uma resposta construída; parecem apenas a maneira natural de continuar.

É por isso que, às vezes, uma conversa comum encosta em alguma coisa muito maior do que a situação parecia carregar. Uma frase passa perto demais de uma lembrança, alguém toca sem saber num assunto ainda sensível ou alguma coisa desperta uma emoção que não estava sendo procurada naquele momento.

Por alguns segundos, aquilo quase aparece. Mas a pessoa sorri, ajusta a voz, responde o suficiente para a conversa continuar. Talvez pegue o copo sobre a mesa, olhe para outro ponto da sala ou faça algum movimento pequeno que ajude a sair daquele instante sem precisar permanecer muito tempo nele.

Quem está por perto talvez nem perceba.

Não porque aquilo seja pequeno, mas porque recolher o que aparece pode ter se tornado um movimento muito rápido. A pessoa reconhece que alguma coisa tocou fundo e, quase no mesmo instante, começa a conduzir a conversa para um lugar onde consiga continuar.

Algumas dores não desaparecem quando deixam de ser mostradas. Elas apenas podem aprender a se retirar antes de descobrir se haveria espaço para permanecer.

Esse movimento nem sempre começa como silêncio automático. Em algumas histórias, houve momentos em que falar não ajudou muito, certas emoções pareciam chegar em horas nas quais ninguém tinha disponibilidade, ou mostrar sofrimento produzia desconforto, afastamento, pressa para resolver ou a sensação de estar tornando tudo mais difícil.

Isso não significa que toda pessoa reservada tenha vivido assim, nem que todo silêncio seja uma defesa. Há quem escolha não falar, quem precise de tempo para organizar o que sente e quem simplesmente prefira preservar determinadas experiências. A diferença está quando a retirada acontece antes mesmo de a pessoa conseguir decidir o que gostaria de fazer com aquilo.

É o que pode aparecer numa pergunta aparentemente simples:

“Está tudo bem?”

E a resposta vem quase junto:

“Está.”

Talvez, naquele instante, a pessoa nem esteja tentando esconder deliberadamente alguma coisa. A resposta pode ter chegado antes de ela verificar se queria falar, se confiava naquele espaço ou se havia alguma coisa que gostaria de ter deixado aparecer.

Há uma diferença entre decidir guardar uma dor e responder antes mesmo de perceber se você gostaria de deixá-la chegar até alguém.

Quando esse caminho se repete, o silêncio deixa de depender apenas da ausência de palavras. Ele pode começar a carregar uma expectativa: a de que aquilo provavelmente continuará pertencendo apenas a quem sente.

É possível estar cercada de pessoas, participar de conversas, receber perguntas e ainda assim não experimentar internamente esses encontros como lugares onde determinadas partes suas poderiam permanecer por algum tempo.

Porque estar acompanhado e ter lugar para aparecer não são exatamente a mesma coisa.

Ter alguém por perto é uma condição externa. Ter lugar envolve também conseguir imaginar que aquilo que você sente pode entrar naquela relação sem precisar ser imediatamente diminuído, explicado, resolvido ou retirado.

E essa diferença ajuda a compreender uma forma de solidão que nem sempre é visível.

Talvez uma das solidões mais silenciosas não seja não ter com quem falar, mas deixar de esperar que aquilo que dói possa realmente encontrar alguém.

Isso não significa necessariamente que as pessoas ao redor não se importem. Às vezes, existe cuidado. Alguém pergunta, oferece presença, tenta se aproximar. Mas uma relação não começa do zero toda vez que alguém diz “pode falar comigo”. A pessoa também chega a esse encontro carregando aquilo que aprendeu a esperar quando mostra alguma coisa vulnerável.

Por isso, uma pergunta disponível pode encontrar uma resposta já acostumada a se recolher.

O outro talvez aceite o “está tudo bem”, mude de assunto e siga a conversa acreditando que respeitou o espaço oferecido. A pessoa, por sua vez, pode confirmar mais uma vez a impressão de que aquilo que sente permanece só com ela.

Ninguém necessariamente decidiu produzir essa distância.

Ainda assim, ela pode se manter.

É nesse ponto que o silêncio deixa de ser apenas aquilo que não foi dito e passa a participar da maneira como os vínculos se organizam. Se determinadas dores quase nunca chegam, as relações ao redor também têm poucas oportunidades de responder a elas. E, com o tempo, a pessoa pode conhecer muito bem a experiência de suportar sozinha sem conhecer com a mesma familiaridade o que aconteceria se permanecesse um pouco mais diante de alguém.

Isso não torna necessário falar tudo. Nem todo sentimento precisa encontrar palavras imediatamente, e nem toda relação oferece condições para recebê-lo. Preservar-se também pode ser uma escolha importante.

A diferença está em recuperar algum espaço entre sentir e se recolher.

Um intervalo em que a resposta não precise chegar antes da pergunta ter sido realmente escutada. Em que “está tudo bem” possa continuar sendo uma resposta possível — mas não a única disponível antes mesmo de você saber se queria dizer outra coisa.

Talvez algumas dores deixem de precisar existir em silêncio quando já não precisam concluir, sozinhas e antecipadamente, que não haverá lugar para onde ir.

Muryel Massaro — Psicanalista

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