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Café em Prosa

Algumas dores aprendem a existir em silêncio

Algumas dores aprendem a existir em silêncio

1 min de leitura

A pessoa está no meio de uma conversa comum quando alguma coisa encosta num lugar mais fundo.

Não é nada grande. Às vezes, uma frase qualquer passa perto demais de uma lembrança que ela não esperava encontrar ali.

Por um instante, ela sente que alguma coisa poderia aparecer.

Mas não aparece.

Ela sorri um pouco. Ajusta a voz. Responde o suficiente para a conversa continuar. Talvez pegue o copo que estava sobre a mesa, olhe para outro ponto da sala, faça algum movimento pequeno só para não precisar ficar ali por tempo demais.

E quase ninguém percebe.

Não porque a dor seja pequena. Mas porque algumas dores, depois de muito tempo sem encontrar lugar, aprendem a se retirar antes mesmo de serem vistas.

A pessoa também aprende.

Aprende a reconhecer quando algo tocou fundo e, quase ao mesmo tempo, a recolher o que apareceu. Muitas vezes, porque já precisou continuar tantas vezes que o corpo começou a fazer isso sozinho.

Até que, um dia, alguém pergunta se está tudo bem e a resposta vem antes da verdade.

“Está.”

E talvez, naquele instante, a pessoa nem esteja tentando enganar ninguém. Talvez esteja apenas repetindo um caminho curto, quase automático, entre sentir alguma coisa e guardá-la de volta.

Quem perguntou talvez aceite a resposta. O assunto muda. E aquilo que quase apareceu fica sozinho mais uma vez.

Talvez seja essa uma das formas mais silenciosas de solidão: não deixar de sentir, mas já não esperar que aquilo encontre alguém.

Porque existe uma diferença entre estar acompanhado e ter lugar para aparecer.

E algumas dores, quando passam muito tempo sem esse lugar, aprendem a existir em silêncio.


✨ Muryel Massaro — Psicanalista 📍 Aguaí/SP e online para todo o Brasil

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