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Café em Prosa

Tem pessoas que passam a vida tentando ser fáceis de amar

Tem pessoas que passam a vida tentando ser fáceis de amar

2 min de leitura

Sabe aquela sensação de estar diante de alguém importante e sentir vontade de dizer que alguma coisa doeu?

A frase começa a se formar por dentro. Ainda não tem todas as palavras, mas já tem direção. Você sabe, por um instante, que poderia dizer: isso me machucou. Poderia contar que sentiu falta. Poderia mostrar que aquilo chegou em um lugar que não era pequeno.

Mas, antes que a frase chegue à boca, alguma coisa em você trabalha.

É rápido. Quase automático. A frase se ajeita antes de sair, como se precisasse passar por uma medida invisível para caber naquela conversa.

E então ela sai menor.

Sai mais leve.

Sai com cuidado suficiente para não parecer silêncio, mas também para não ocupar espaço demais.

Quem escuta talvez nem perceba que faltou alguma coisa. Talvez responda normalmente, continue o assunto, acredite que aquilo era tudo o que havia para ser dito.

E, por alguns segundos, vem um alívio discreto.

A conversa não mudou de lugar. O outro não se afastou. Nada parece ameaçado.

Então você aprende, um pouco mais, que talvez seja assim que se permanece: entregando apenas aquilo em você que parece não dar trabalho.

Com o tempo, esse movimento deixa de parecer escolha. Você já não percebe quando começa a preparar as próprias emoções antes de entregá-las — não para mentir, mas para que caibam melhor no espaço que acredita ter.

E talvez o mais difícil não seja diminuir uma frase.

Talvez seja passar tanto tempo fazendo isso que, um dia, você já não saiba qual seria a frase inteira.

Porque, quando uma parte sua passa tempo demais sendo cortada antes de chegar ao outro, ela não fica apenas escondida.

Ela começa a chegar menor também para você.

E talvez seja por isso que, quando alguém pergunta o que você realmente sentiu, pode acontecer um silêncio estranho.

Não o silêncio de quem não quer falar.

O silêncio de quem traduziu a própria verdade tantas vezes para uma língua menor que, diante da possibilidade de falar inteiro, já não encontra as palavras com facilidade.

Talvez algumas pessoas passem a vida tentando ser fáceis de amar porque aprenderam, em algum momento, que o outro parecia ficar quando elas precisavam menos.

E, depois de muito tempo, já não sabem se foram amadas pelo que eram ou pelo tanto que conseguiram não incomodar.

Até que uma pergunta começa a aparecer:

o que em mim precisou ficar pequeno para que eu continuasse cabendo?


✨ Muryel Massaro — Psicanalista 📍 Aguaí/SP e online para todo o Brasil

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